Monday, December 14, 2020

Memória

A memória é um palácio curioso e vivo, surpreendente. Oculta de nós momentos, e em outras circunstâncias nos arremessa esses mesmos momentos na cara, de forma que nos seja impossível ignorar. Uma cena veio rodopiando das profundezas de mais de uma década atrás. Era noite, e eu possivelmente havia me atrasado duas horas. O sorriso paciente do menino à minha frente não transparecia qualquer decepção ou incômodo com o fato. Ele ria da minha previsibilidade e constância, até na falta de pontualidade. Minhas mãos se agarravam uma à outra como se buscassem desesperadamente apoio, e suavam. Silenciosamente eu agradecia ao blush por ele não poder me ver enrubescer. Ele não sabia, mas eu estava preparada para terminar a noite sozinha, na companhia das minhas lágrimas. Havia escolhido essa noite para entregar a ele meu mais profundo, vergonhoso, humilhante e terrível segredo. Um segredo do qual eu me culpava e me odiava. Meu coração estava pequeno e apertado, mas eu sentia ser impossível continuar desfrutando de sua companhia amorosa quando ele amava apenas uma projeção de quem eu realmente sou. Estávamos sentados nas antigas mesas externas daquele fast food de sanduíches de minhoca que envenena e seduz as crianças no vício que deveria se chamar trash food. A noite na Savassi era desagradavelmente barulhenta e desprovida de privacidade. Com um toque requintado de crueldade, afastei mais um jovem que nos interrompeu a conversa. (Na época, eu ocultava minha timidez e ansiedade através de uma crueldade intensa com um mix de ousadia e grosseria. Dói só de lembrar, e mal me reconheço). Por fim, as palavras foram ditas. Eu olhava para baixo, para as mãos mais ansiosas do que nunca, tentando ser invisível, esperando ele se levantar e ir embora sem olhar para trás. Entretanto ele estendeu suas mãos sobre a mesa e alcançou as minhas. Levantei o rosto, subitamente surpresa, e encontrei seus olhos de âmbar esverdeado, com rajadas vermelhas, que arrancava suspiros inexplicáveis em meu peito. -- Você não me despreza por isso? - perguntei, trêmula. -- Não, claro que não. O que eu sinto é uma tristeza enorme por isso ter acontecido com você. Eu queria poder ter protegido você de ter vivido essa situação. Gostaria de poder apagar essa dor em você com um sopro. -- Não te provoco asco? Você não me ama menos por isso? -- Se é que é possível, te amo mais. Por ter me contado, por confiar tanto em mim. Por mostrar a profundidade da sua dor. ... Como uma nuvem passageira carregada pela brisa suave, a cena se torna novamente névoa e mergulha no redemoinho do passado. E com esse precioso presente na lembrança, finalmente fui capaz de perceber que tal amor é o único amor possível. Aquele disposto a te aceitar por inteiro e desejar arrancar a sua dor de dentro de ti. Quisera eu que a palavra amor queimasse nos lábios de quem a usa em vão, e que não está disposto a lutar pela felicidade do ser amado, e nem atropelar seu ego. Andei me sentindo curiosamente masoquista por esses sentimentos que contrariam o ego e fazem bem ao coração, e descubro que até eu já profanei a palavra amor. Ainda bem que não mais, e que uma lição aprendida uma vez, me pertence até o fim.

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