Tuesday, December 15, 2020

Guerra

Tirei um tempo para, através das minhas próprias palavras, revisitar meu passado, minha história, meus sentimentos e pensamentos ao longo das últimas duas décadas. Fico um pouco inevitavelmente triste em perceber a causa de tantos lapsos de julgamento, mas evolução não é algo que se faz para aquilo que já passou, não existe reversão do passado. Eu nem gostaria que houvesse. Não há nada que eu tenha deixado lá atrás que eu gostaria de ter mantido, mas gostaria de ter aprendido certas coisas mais depressa. Os últimos meses da minha vida foram um caos interno maior do que jamais pensei ser possível, porém percebo que isso se deve ao fato de que finalmente estou me vendo por inteiro, não apenas frações dispersas e temporárias que existiram de mim. E lidar com 34 anos de muita intensidade, muitos sorrisos e muitas lágrimas, e muitas memórias suprimidas, tem sido um baque doloroso. Meu chão desapareceu por inteiro, nada como andar sobre ovos, mais semelhante a tentar andar sobre a água. Naturalmente, comecei a me afogar. Ainda não estou deslizando graciosamente pela superfície desse lago profundo que é a minha alma, mas já não me sinto mais sem ar. Começo a divisar um caminho possível onde todas as partes de mim sejam reconhecidas, rumo à unidade. Ser todos os meus aprendizados, todas as minhas esperanças, meus sonhos, minhas dores, minhas perdas e conquistas, minhas cicatrizes e falhas, minhas forças, meus dons, ser tudo o que eu acredito, que eu sei, que temo e que duvido, ser esse complexo furacão que sou eu, às vezes parece algo maior do que eu mesma possa sustentar num único olhar. Mas não é! Eu já sou, mesmo que em fragmentos... A sensação que tenho quando olho para o passado é que a cada amanhecer, uma Livia diferente despertava. Memórias e desejos seletivos. E nos últimos anos, a única Livia que acordava era a leoa feroz que nasceu no parto de cada filho. Lutando sempre pelo mesmo fim, e lidando com o restante como peças danificadas de um quebra-cabeças antigo. Quando despertou em mim toda a potência dos sonhos e dons de 17 anos atrás, eu não conseguia encontrar espaço em mim mesma para existir. Confesso que ainda não consigo, mas só de esboçar um projeto de completude para mim mesma, é um passo que semanas atrás parecia impossível. Descobri que o impossível e o medo sempre me moveram, ao invés de me paralisar. E nesse momento decisivo, não poderia deixar de ser assim. Acabei de ler mais um livro, e não sei como consegui viver por tanto tempo longe de tudo que me inspira e motiva - não por responsabilidade, mas por amor. No fundo, esses abandonos tentaram me mostrar que minhas escolhas estavam na contramão da minha felicidade. A cada frustração, eu me afastava daquilo que mais amava, e me perdia da minha própria essência - até mesmo quando eu acreditei que estava bem porque superficialmente, e financeiramente, tudo parecia melhor do que jamais fora. Talvez para pessoas diferentes de mim, seja possível viver pela força de vontade de cumprir obrigações, mas minha alma só entende a motivação do amor. E como eu me tranquei bem longe de tudo que eu amava, fui perdendo a sensibilidade e a habilidade de sentir e expressar amor. Hoje vejo que é porque dei amor para todo mundo ao meu redor - menos para mim. Nem sabia como me dar amor! Acabei de começar a aprender, me acolhendo com um abraço triste ao final de uma guerra, quando tudo parece ser apenas trapos e resquícios do esplendor de outrora, mas ainda é possível encontrar brilho no olhar. Não é o fim de uma batalha: encerro aqui a guerra que travei contra mim mesma desde tempos imemoriais, pois a guerra foi quase tudo o que eu aprendi. Me recolho com carinho, para cuidar do templo em ruínas que sobreviveu. O mundo por si só já oferece guerra demais contra cada um de nós, e não quero mais levantar armas contra a única pessoa que jamais me abandonará:eu.

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