Já vi em mim pequenos traços de inveja - quem diria! Fruto da cômica injustiça universal, ou da justiça divina. A ira sempre foi meu maior pecado, e por isso hoje uso lágrimas no lugar de punhos. Não tenho também uma fração de todos os defeitos, mas foco no que já encontrei, em busca de aprimoramento. E hoje vi covardia.
A covardia é a minha agonia, uma doce melodia falsa que gosta de se disfarçar de audácia. Aos desavisados, devo parecer valente. Tomo a dianteira e vou na frente, galopando, correndo em direção àquilo que mais me provocar temor. Assim não sobra tempo para ninguém me medir pelo tamanho da minha dor...
Mas é covardia, porque toda vez e todo dia eu só penso em me esconder. Esconder meus talentos para não parecer presunção, esconder meu corpo para não parecer convidativo, esconder meu riso para ser levada a sério, esconder meu amor para não correr o risco de ouvir um não - prefiro me dar esse não eu mesma.
E assim vou, me escondendo em migalhas, sorrindo cada vez mais vazia, com um olhar que demora a aceitar o que vem da vida, silenciosa covarde que não cabe em nenhuma situação. Vou me escondendo em poesia, em frutinhas e doces, desligo-me da dor e vou chorar só comigo - até de quem é amigo desaprendi a confiar.
E enquanto isso, nessa dança, a vida tentou subtrair meu irmão alma gêmea. Nunca imaginei que choraria assim, ou que pediria tão fervorosamente para o universo me devolver nosso laço sagrado. Quando, no mesmo dia, sua mente retornou, percebi o quanto também eu esperei perder para valorizar. Eu, covarde, não quero aprender a viver num mundo sem quem, mesmo com covardia, do meu coração se apropria.
Meu corpo é uma oração que canta: por favor, covardia 🌜🍁
