Friday, July 9, 2021

Pertencimento

O mundo dos sonhos é um lugar mágico e misterioso. Na infância, eu tinha medo de fechar os olhos para dormir. Eu fazia uma pequena prece: uma noite sem sonhos, por favor. Mas quase todo dia o sono conduzia a uma guerra assombrosa da qual eu era a protagonista, e faces demoníacas aos berros disputavam por mim. Sonhos repetidos sempre doíam mais, porque eu já sabia como iriam terminar. Se era uma queda para a morte, consumida por chamas ou lutando pela vida numa selva cheia de armadilhas, assim que eu despertava dentro do sonho era tomada pelo deja vu e já sabia como acabaria. Quando cheguei aos 20 anos, comecei a ter sonhos ainda mais perturbadores, pois não eram fantasiosos. Sonhava ter sido traída e ter brigado com meu companheiro, e quando ele me tocou pela manhã retribuí logo com um tapa na cara - que ele não entendeu, e demorou um bom tempo para eu entender que havia sido um sonho. E isso, porque meus sonhos já não eram mais pequenas cenas flutuantes - eu vivenciava cada minuto, cada hora, e lembrava de tudo em detalhes. Lembrava das palavras ditas, e tudo que eu sentia nos sonhos, eu acordava com o coração transbordando aquilo. Em 2010, veio um sonho muito marcante: eu não era eu mesma no sonho, e vi toda a cena como uma observadora invisível no ar. Assisti em horrendos detalhes enquanto fui assassinada, esquartejada e devorada por cães. Senti no corpo tudo o que vi sendo feito comigo, e acordei aos berros. Gritei por muito muito tempo, completamente certa de que havia morrido. Quando parei de gritar uma hora depois, já sem voz, andei no escuro tateando, aterrorizada me levantei e encontrei um interruptor. Acendi a luz e não estava morta, mas aquela sensação não passou. liguei para o meu namorado da época e aos prantos pedi para ele me dizer se eu estava viva. Ele me tranquilizou. Por essa primeira hora, eu momentaneamente perdi as lembranças daquele "agora": onde eu estava, o que eu havia feito naquele dia, o que eu fazia da vida. Conversando com o namorado as memórias foram voltando. Procurei me tranquilizar e esquecer, mas sempre que me deitava a prece era a mesma: "uma noite sem sonhos, por favor". Muitas águas rolaram depois... Tive um sonho, ou talvez não tenha tido - senti o deja vu quando o tive há dois anos, mas não me lembro de quando foi que o tive anteriormente - e esse foi o mais aterrorizante de todos, não pelo sonho em si, mas pelos aspectos que explicarei. Num dia qualquer de meados de 2019, coloquei meu filho caçula para dormir e fui me deitar. Despertei em outro mundo, com outro corpo, outra vida, outra realidade, outra profissão. Mais uma vez, não era uma cena - era como viver, porém algumas semanas depois tudo acabou quando eu morri e despertei - completamente desesperada em resolver as questões que estava vivendo no sonho. Acordei chorando e em pânico, e não sabia onde eu estava. Não me lembrava sequer da minha casa, saí andando para tentar entender onde estava e como poderia ter vindo parar aqui. Quase entrei em choque quando vi meu filho e não o reconheci - não era nem da mesma idade do bebê que eu tinha em meu sonho. Tive certeza que isso só podia ser um sonho e que a qualquer momento eu iria acordar e ter que retomar a fuga frenética para proteger meu filho. O dia todo passou, e essa vida continuou, a outra não voltou. Isso tinha um sabor ácido, eu lembrava com clareza o que havia comido no restaurante self-service 2 semanas antes naquele mundo sonhado, mas não lembrava o nome do bebê me chamando de mamãe. Então peguei meu telefone (que na época graças a Deus não usava senha) e mandei mensagem para a única pessoa que eu reconhecia do sonho, por foto, minha amiga Ingrid. Liguei para ela, novamente aos prantos e contei tudo que me lembrava. Como a vi morrer e seu grito ainda ecoava distinto em meus ouvidos, sua voz e todas as coisas que vivemos juntas lá. Ela me orientou calma, e aos poucos fui lembrando desta vida. Sinceramente isso foi tão assustador que passei dois dias sem dormir, com medo de voltar para o "mundo do sonho" e passar por tudo isso de novo. Porém para minha alegria, não voltou a acontecer, pelo menos não assim, e não até ontem. Tive muitos sonhos nos últimos 2 anos, claro, mas geralmente cenas entrecortadas ou até mesmo nítidas, porém não cenas de morte. E ontem tive mais um desses sonhos longos, de sentir e lembrar do passar dos dias ao longo do sonho, em tantos detalhes como se tudo estivesse sendo realmente vivido. Porém foi como se eu estivesse editando o passado, costurando-me a uma realidade que não é minha, buscando sentir algum tipo de pertencimento na vida das pessoas com quem sonhei. Entretanto estou fadada a sempre olhar de fora, uma estrangeira expulsa do coração daqueles em quem reconheço ser o meu lar. Ao menos em sonho, tenho a chance de sentir sua dor e sua tristeza, e dar aos seus olhos cansados os meus olhos compreensivos, e apenas nisso já me sinto pertencer à sua vida, simplesmente porque sempre irei me importar...

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