Saturday, February 20, 2021

Ato I . Amor Fantasma

Ninguém sabe a hora e o dia certos em que uma história de amor pode começar. E o que é uma história de amor? Será preciso caber no padrão de final feliz, casamento e filhos? No meu mundo literário as histórias são livres para se auto compor, conforme o vento sopra as nuvens em desenhos enigmáticos no céu claro. E uma história de amor nada mais é que uma fração de vida fotografada onde a pureza do amor aflorou. Ela tinha medo, e tinha também curiosidade. Ponderou bastante qualquer interação, e o pessimismo regia seus pensamentos. O ego, ferido, queria distância. Entretanto sempre há uma instigante curiosidade que demanda ser investigada. E assim, ela falou primeiro, e em seguida se armou para uma batalha, se protegendo antecipadamente de qualquer resposta rude, ou do silêncio ainda mais perfurante. Suas expectativas foram então frustradas por um diálogo gentil e inesperado. Ela baixou as armas, mas não se iludiu - diante de si só via o impossível. Por que esse estranho a intrigava tanto? Por que havia de despertar nela uma sede desconhecida, de mergulhar em águas profundas e turvas? Um mistério. Talvez o mistério fosse tudo - e numa jogada insana, ela entregou segredos dos quais não falava há tempos, certa de que seria mal vista por excessiva abertura, afinal nenhuma pergunta havia sido feita, e ali estava ela contando tudo de si. Uma lágrima de choque se chocou com um sorriso incrédulo, quando aquele gentil estranho, num movimento inexplicável, ao invés de se afastar, mergulhou na mesma direção. E as palavras continuaram brotando de uma fonte inesgotável de curiosidade, uma faísca na escuridão da mesmice habitual. E num dia qualquer, às duas da tarde, ela entendeu. Seu coração acelerou descontrolado, as mãos suando copiosamente, o ar parecia lutar em seus pulmões... Havia nascido nela uma semente de amor, e em seu peito jazia um sarcófago de si. Como poderia brotar uma semente em solo infértil? Como poderia resistir aos seus esforços de exterminá-la como a uma erva daninha? Sua mente rodopiava em puro medo - esquecestes da impossibilidade desse amor? Não, não havia se esquecido e ainda assim ali estava. Ela chorou, o medo contagiava o ar e tudo ao seu redor, sufocante. Ela se conhecia bem demais para saber que esse era o mais perigoso dos sentimentos. E tentou então fugir em todas as direções opostas, mas seu corpo já não mais obedecia. Fluía como a correnteza perene de um rio selvagem, estrondosamente forte rumo a um único coração. Aqui as lágrimas corriam tão depressa que ela esteve em sério risco de se afogar - não devia ser tão triste assim amar. E ele, que nada sabia, foi tão implacável quanto sua natureza impossível já havia prescrito, quando ela se atreveu a se declarar. A escuridão a recebeu como seu único lar, e aqui fica um dos perigos de amar: é se perder, e nunca mais se encontrar.

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