
O caminho é desconhecido
Pensamentos recorrentes de liberdade. Trazem outras saudades, saudades guardadas mais fundo que quaisquer outras. Nuvens. Luzes douradas nos prédios antigos de uma Belo Horizonte com esplendor decadente. Céu rasgado de sol. Interminável arco-íris.
-Mamãe, porque o arco-íris fica lá na água?
-Boa pergunta, meu bem. Eu não sei.
Olhos dispersos me perseguem na estrada das memórias. Amei estas ausências, estes desvios todos, longamente. Amei simples palavras por serem ditas tão simplesmente; estas ainda amo. Não me sobraram ausências de olhares para amar porque foram substituídas por distintas insistências em sustentarem os olhares meus. Passei então, confusamente, a amá-las. Saberei viver sem?
Um espírito tão livre! Mas eu sou tão livre... me sinto algemada. Não faz diferença a minha liberdade porque o amor é doação, é de dentro para fora. Talvez nem seja mesmo livre em vida mas certo dia sua alma - ou seus beijos vorazes - me disseram que era mais livre que todos os outros. Mais livre que pássaros porque não precisava de asas para voar. Mais livre que eu porque não precisava de amor para amar, tampouco de tristeza para chorar. Amava o amor e chorava o mundo. É ainda a coisa mais bela, selvagem e livre que tive o prazer de cativar - se é que o fiz.
Passos surdos em pedras cansadas. Respirando minério, pedra, história, terra! Respirando eras... vidas sem conta.
Procuro sem encontrar razão que me explique porque pode existir tal amor, tão fraterno e indissolúvel. Tão absoluto, envolvente, absorvendo tudo de mim.
Pessoas indo e vindo. Crianças. Beijos de crianças. Crianças e seus pequenos corpos cansados.
Não quero suportar esta maldade. Sigo sem ver dor, sem cansaço, sem peso. Corpo flutando pela mata fechada. Voejando estas pequenas e mundanas adversidades.
À frente, caminho desconhecido. Atrás, ventania desbravada. Onde foi que lhe deixei, amor? Não faz mal, nem falta, nem medo, nem triste carinho. Se minhas palavras sonharem em se desenhar no ar rubro desta tarde morna de Julho, sei que você as lerá. Foram os seus olhos que aprenderam a ler e desvendar as poesias da minha alma, meus passos silentes e minhas mãos tão frias... meus lábios tão vivos e meus olhos tão seus. É para você entender que eu me pronuncio; além disso, sou silêncio e paz. Sou mãos dadas para entardecer de mansinho... Vem me dar seus olhos que me embalam mais profundamente que qualquer corpo!
Então brilhou em meio a altas árvores frondosas um par de olhos tristes. Este pássaro que ali se calava, em seu luto, disse-me que o meu silêncio lhe faria tão mal quanto a mim faria o silêncio seu. Era final: precisei falar! Então deixei um grito na paisagem, em duas folhas iguais: meu corpo inteiro se entregou à necessidade de lhe amar com as idéias. Veio então um vento frio, que voou uma semana antes de lhe lamber as faces e beijar em mel os lábios, para lhe provocar calafrios e pensamentos de saudade.
Me rendi! Amei cada pedra do caminho... amei cada cor e amei também a dor.
Por onde seguir? Aí foi que também a estrada amou, amou a mim que a amei sem fim. Me tomou então, me acalentou. Soprou-me fôlego nos pulmões fragilizados d'um vírus maligno dos dias sempre iguais. Pude andar com leveza, abandonei naquele caminho não desvendado porém muito amado tudo aquilo que não queria me permitir sentir originalmente.
O caminho me disse para seguir os pés que passam. Um casal de sabiás. Mudos. Eles iam adiante, acima e avante, sempre para cima e para frente. Sem remorso. Sem pré-ocupações. Não sem medo; no entanto, repletos de coragem!
Atingiram os pés d'uma escada. Sinuosa, oculta, desafiadora.
Olhei-a longamente até onde permitia-se ser vista. Ouvi uma canção com palavras que meu coração carregava há tempos soando numa melodia desconhecida mas tão reconfortante! Ela disse ser como o caminho, precisando de amor mas sem oferecer carinho. Não o possuia. Só havia nela caminhos e informações, era este o seu legado.
Ouvi em silêncio. Antes de calar-se, a canção cantou: juntos enfrentamos, divididos caímos. Era o momento decisivo. Aceitar o mistério que as alturas resguardavam? Partir por nova busca?
Meus lábios se morderam em excitação, meus olhos sorriram.
Heathciff, aí vou eu!

















