Friday, March 16, 2007

Lívia&Lívia


Eu nunca entendi muito bem essa questão da dualidade.
A menina nasceu. Roubou meu aniversário com isso. E logo no mesmo dia roubou também meu nome. Cresceu e foi formando um caráter tipo o meu, e desgostando das mesmas cebolas e xuxus que eu. E da família, e das pessoas também. Aí depois de jovem roubou minhas idéias e meus gostos, roubou até minha franja e a cor do meu cabelo. Roubou os homens que meu coração escolheu amar.
Roubou minhas palavras e meus poemas, roubou minha voz e minha vontade de dançar.
Um dia nossos olhares se cruzaram e achei que mirava o espelho...
E depois me vi tão vazia, tão vazia... ficou mesmo só a raiva de existir duplamente, sem a menor chance de originalidade.
Nunca entendi muito bem essa tal dualidade, existindo só para me entristecer. Só pra me fazer sofrer...

Saturday, March 10, 2007

Felicidade


Dando continuidade aos pensamentos anteriores, para tentar fazer algum sentido.

Estive à espera daquele cujo brilho do olhar me instigava a viver. Estive me nutrindo desta alegria egoísta e destrutiva, e por vezes o desgastei sem a menor necessidade. Me acostumei com essa facilidade de me alimentar das luzes douradas e mornas da felicidade. E ele se cansou, ou não, não sei bem o que houve. Mas sei que ele partiu, levando consigo a fonte de tudo que me equilibrava e sustentava. Esperei longamente por seu retorno... uma hora se passou. E um dia. E um mês. Bimestre. Semestre. Quando fizer um ano já terei me esquecido dos prazeres da sua preciosa luminosidade. O toque suave de suas mãos em meus cabelos já terá se apagado, porque eu os cortei. Seu abraço estará perdido nas ondas que vêm e vão na direção do meu abraço. Meus lábios não terão mais resquícios do sabor dos seus lábios. Seu cheiro que se impregnou em minha alma terá sido completamente lavado por minhas lágrimas, sua voz para sempre perdida em ecos indistintos em meio aos mais sublimes sons marcados eternamente. E seus olhos... seus olhos surgirão sempre fechados em minha memória, como túmulos âmbar, cor da terra e das tempestades... símbolos da infrutífera caça à felicidade pelos suspiros de outrem.
Agora estou numa busca certamente mais complexa e dolorosa, mas cujos frutos são sempre e sempre férteis e efetivos. Busco a felicidade em mim.

Monday, March 5, 2007

Sozinha


Quantos dias eu passei acreditando que era perfeito? Quantas noites eu virei procurando sanar meus defeitos? Quanto tempo eu sentei aqui e esperei você chamar meu nome, meu timbre ou mesmo a nossa canção? Você partiu, trancou-se fora de mim e levou a chave embora. Agora? Sento-me nesta semi-estrela esperando teu brilho me iluminar... um pouco mais.


(Antigamente, eu estava mesmo à tua espera)

Sunday, March 4, 2007

Confissão


Eu queria independência. É absolutamente tudo que eu mais queria. E é exatamente o que não tenho. Sinto-me aprisionada em uma ilha, ao redor só vastos mares a perder de vista. Não parecem haver opções plausíveis. Sinto-me terrivelmente destinada a sofrer, independentemente do caminho escolhido.
Ultimamente andei fazendo umas péssimas escolhas. Escolhi não viver, não caminhar. Não ter que escolher nada, caminho algum. Sinto-me um tanto morta.
A verdade encontra-se no fato que sou uma eterna apaixonada pela vida. As pessoas que cruzaram meu caminho - ou cujos caminhos eu cruzei - estou certa que qualquer que sejam as opiniões que tenham a meu respeito, todas concordam que sou uma amante do carpe diem, viver o momento.
Veja então como é triste, uma pessoa que tanto ama viver esconder-se da vida e meramente existir. Eu detesto a vida que levo. Detesto o fato de não conseguir me afastar de pessoas de quem não gosto mais. Detesto ser obrigada a me calar para não ter que mentir, pois minhas verdades e pensamentos reais são por demais ácidos. Detesto a forma como minha mãe me trata, me impedindo de amá-la - ou ao menos me impedindo de demonstrar isso. Detesto a minha incapacidade de me sustentar, e só detesto mais do que isso minha incapacidade de sustentar meu filho. Detesto não estudar. Detesto minha covardia perante as escolhas e os posicionamentos. Detesto tudo o que vivo no momento, e tudo o que provavelmente aparento ser no momento, principalmente porque neste exato momento eu não poderia estar mais completamente longe de ser... eu.
Eu tenho tantos segredos lacrados, tantos medos irrevelados, tanta solidão em meu coração... não solidão por alguém em específico, mas solidão de amizade. Solidão de amor, puro e honesto. Solidão de confiança.