Thursday, September 16, 2021

Covarde

Não há modos de superar circunstâncias ou evoluir sem primeiramente enfrentar a fase do reconhecimento. Por tanto tempo passei admirando minhas qualidades, sem querer ver ou reconhecer minhas falhas... Não mais. Ando buscando ativamente cada defeito, cada fraqueza, numa tentativa vã de me sentir mais humana, mais conectada de alguma maneira às pessoas com quem partilho o mesmo chão e o mesmo ar.
Já vi em mim pequenos traços de inveja - quem diria! Fruto da cômica injustiça universal, ou da justiça divina. A ira sempre foi meu maior pecado, e por isso hoje uso lágrimas no lugar de punhos. Não tenho também uma fração de todos os defeitos, mas foco no que já encontrei, em busca de aprimoramento. E hoje vi covardia.
A covardia é a minha agonia, uma doce melodia falsa que gosta de se disfarçar de audácia. Aos desavisados, devo parecer valente. Tomo a dianteira e vou na frente, galopando, correndo em direção àquilo que mais me provocar temor. Assim não sobra tempo para ninguém me medir pelo tamanho da minha dor...
Mas é covardia, porque toda vez e todo dia eu só penso em me esconder. Esconder meus talentos para não parecer presunção, esconder meu corpo para não parecer convidativo, esconder meu riso para ser levada a sério, esconder meu amor para não correr o risco de ouvir um não - prefiro me dar esse não eu mesma.
E assim vou, me escondendo em migalhas, sorrindo cada vez mais vazia, com um olhar que demora a aceitar o que vem da vida, silenciosa covarde que não cabe em nenhuma situação. Vou me escondendo em poesia, em frutinhas e doces, desligo-me da dor e vou chorar só comigo - até de quem é amigo desaprendi a confiar.
E enquanto isso, nessa dança, a vida tentou subtrair meu irmão alma gêmea. Nunca imaginei que choraria assim, ou que pediria tão fervorosamente para o universo me devolver nosso laço sagrado. Quando, no mesmo dia, sua mente retornou, percebi o quanto também eu esperei perder para valorizar. Eu, covarde, não quero aprender a viver num mundo sem quem, mesmo com covardia, do meu coração se apropria.
Meu corpo é uma oração que canta: por favor, covardia 🌜🍁 

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