Hoje estou inspirada.
Ontem estava pensando como é curioso a forma que o tempo passa, e ainda mais curioso o tanto que ele não passa dentro da minha sensação de memória. Hoje o Daniel completou 6 anos. Nem preciso olhar para trás no arquivo das memórias para voltar a ser a menina com seus 18 anos recém-completos, num longo vestido preto e blusa de frio vinho, achando que esse dia seria só mais um dia sem nada de muito especial para fazer e que de repente começou a sangrar e chorar e brigar e se indignar com tudo e todos no hospital, com medo e com fome - o sono veio mais tarde. A menina que dormiu profundamente em trabalho de parto e chorou muda a dor da anestesia - que também não funcionou. Apenas um projeto de mulher, tão longe de ser uma mãe e totalmente desesperada, abandonada num corredor vazio enquanto perdia o primeiro banho da vida do único filho. Lembrar é como ser ela mais uma vez, sentir tudo aquilo, e tocar meu útero vazio às 16:32 dos dias 17 de Setembro de cada ano que eu viver.
Outras memórias, mais recentes, pelo contrário, me abandonaram por completo e me deixaram em paz. Meus dias e noites estão tão mais vazios dos outros que se tornaram repletos de mim - e posso me ver. A auto-análise se tornou tão natural e frequente que simplesmente sou incapaz de ficar sem. É um movimento constante: penso em fazer, faço, penso por que fiz, penso por que senti vontade de fazer. E aí acontece! Eu entendo um pedaço novo de mim. É uma delícia.
Não tenho mais preconceitos comigo - estou aberta para me conhecer. Não sei se isso é um efeito póstumo da viagem ao mundo da Alice, mas foi aí que tudo começou. O estar - absolutamente solitário - no buraco onde Alice por vezes se encerra, promove um ápice na capacidade de concentração. Talvez seja a questão da multicoloridade do universo e sua total desproporção de tamanhos quando comparada a nossa realidade cotidiana, não sei dizer ao certo. Uma vez que cheguei lá, não queria voltar nunca mais. Não me apaixonei pelo Chapeleiro Maluco, mas quis sua companhia eterna, assim como Alice. Estive só comigo e as coisas do meu universo particular, e era o Chapeleiro que eu via quando abria os olhos - sem ver.
Agora já é mais tolerável a idéia de viver aqui - no universo comum - porque sei que sempre posso voltar mas, muito mais que isso, é que minha estadia lá transformou o mundo aqui em algo muito melhor, começando na auto-análise, passando pelo viver simplório e culminando na absoluta vivência natural.
WTF?, you might ask yourself.
Sou Lívia, e só porque está escrito no RG. O que vem daí, é a cada segundo. E estou adorando tudo isso!

1 comment:
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